sexta-feira, 18 de março de 2011

Frígido ser de mim



O frio domina, o gelo envolve, as árvores encontram-se paralisadas e o vento leva as folhas para longe de mim... Sinto o frígido assoviar, matando-me suavemente. É noite e é dia ao mesmo tempo, defino-me logo: à borda do delírio. Louco eu? Que misero destino! Apenas sempre estive a caça de deparar-me de frente com meu eu. E agora acabo aqui, a conversar com meus muitos eu, que não são eu. Não sei qual deles eu sou, na verdade, sei-o bem, mas utilizo de maquiagens.
Não sei se sou um ser bom ou se sou um vilão maquiavélico, o que sei é que fui feliz na hora errada com os muitos eu, que não são eu; o fato é que há em mim uma sede de sagacidade e deleito-me, prazerosamente, ao ver os estúpidos depositarem toda confiança em mim. Resumo-os em: pobres desses tolos!
Às vezes eu tinha a sensação de que andara me imitando um pouco. Copiando de um eu para outro, eles eram a síntese de mim. “O pior plágio é o que se faz de si mesmo”. Outrora eu era homem, por vezes mulher; mais velho, por outras, infante; eu sempre fui e, prontamente, não era mais. Cultivara o tempo todo em mim uma falsa inspiração.
Agora, o frígido vem até mim, cruelmente. Não há saída. Ele é um dos meus eu que andara revoltado e exigira vingança. Vou deixá-lo me levar, pois é assim que o abissal segredo de mim deve se esvair, como uma clave assinalada em meu ser. Percebo fluir, do meu negro e duro olhar uma lágrima a dizer: - “Quanto a mim, não sei de nada.”

4 comentários:

ana disse...

Sabemos tão pouco de nós mesmos...
Talvez seja este o grande mistério da vida: descobrirmo-nos a cada dia, nas nossas atitudes, nos nossos desejos?
Beijos, Analice.

Flavia S. disse...

Tá muuuuito bom o texto amiga!!

Rafaela Ismael disse...

Obrigada!

emylli disse...

Ela se libertou, melhor que isso, finalmente se encontrou ;D